A condenação dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco trouxe um alívio necessário, mas o caso ainda não está totalmente fechado. A Justiça continua trabalhando para responsabilizar todos os envolvidos no crime e nas manobras que tentaram atrapalhar as investigações. Até o momento, catorze pessoas já foram condenadas por participação direta ou por obstruir a apuração.
O crime, que chocou o país em 2018, contou com uma rede complexa. As investigações apontam que pelo menos dezessete pessoas estiveram de alguma forma ligadas ao homicídio ou à sua cobertura. Esse longo processo mostra a teia de interesses que cercou o caso, desde a execução até as tentativas de apagar pistas.
Agora, o foco se volta para os processos que ainda correm em segredo de Justiça. Cada nova decisão ajuda a completar o quebra-cabeça, mostrando quem agiu e como as peças se encaixaram. A sensação é de que, passo a passo, a verdade está sendo costurada.
### Os mandantes e a motivação do crime
A principal pergunta — quem ordenou a morte de Marielle — foi respondida pelo Supremo Tribunal Federal. Os irmãos Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio, e o ex-deputado Chiquinho Brazão foram considerados os mandantes. A motivação, segundo os ministros, estava ligada a disputas por terras.
A vereadora, em sua atuação na Câmara do Rio, ameaçava interesses da família Brazão em operações de grilagem. Para proteger esses negócios, eles decidiram eliminar Marielle. Ambos negam veementemente as acusações e devem recorrer da decisão.
A delação do ex-PM Ronnie Lessa, que confessou ser o executor, foi crucial para chegar até os irmãos. Lessa afirmou que foi recrutado por outro policial militar, Edmilson Oliveira, o Macalé, que seria o elo com os Brazão. Macalé foi assassinado em 2019, num crime visto como “queima de arquivo”.
### A rede de execução e o acordo de delação
Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, o motorista do carro usado na emboscada, já estão condenados. Eles receberam penas de 78 e 59 anos de prisão, respectivamente, e agora buscam revisão das sentenças. Foi a delação de Queiroz, fechada primeiro, que incentivou Lessa a também fechar um acordo.
Em troca de uma pena menor, Lessa deu detalhes cruciais sobre o crime. Ele contou como o carro clonado foi obtido e confirmou o papel de Macalé como intermediário. Suas revelações foram o fio que puxou toda a teia, conectando os executores aos mandantes políticos.
Esses acordos, chamados de colaboração premiada, são polêmicos mas se mostraram instrumentos essenciais. Sem eles, dificilmente a investigação teria rompido a barreira de silêncio e alcançado as figuras de maior poder por trás do assassinato.
### As condenações por obstrução da justiça
Além dos que planejaram e executaram, há os que tentaram desviar o curso da investigação. O ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Rivaldo Barbosa, foi condenado por atuar para que os verdadeiros culpados não fossem descobertos. Ele assumiu o cargo justamente no dia do crime.
Outros agentes públicos também são acusados de embaraçar as apurações. O delegado Giniton Lages, que comandou a investigação inicial, e o policial Marco Antonio de Barros Pinto, o “Marquinho DH”, foram denunciados pela Procuradoria-Geral. O STF ainda vai analisar seus casos.
A Justiça fluminense já condenou ainda uma advogada e um ex-PM por prestarem depoimentos falsos no inquérito. Essas condenações mostram que o esquema não parou na ação dos assassinos, mas tentou se infiltrar na própria estrutura que deveria apurar o crime.
### O descarte de provas e os envolvidos
Logo após o crime, parte do arsenal de Ronnie Lessa foi jogada no mar. A suspeita era de que a submetralhadora usada no assassinato estivesse entre as armas descartadas. Lessa nega, afirmando que apenas o silenciador poderia estar no lote e que a arma principal foi devolvida a Macalé.
Cinco pessoas foram condenadas por participar dessa operação de descarte. Entre elas estão a esposa de Lessa, Elaine, seu cunhado, um ex-bombeiro e dois outros homens. Todos negam qualquer crime relacionado ao caso.
O ex-bombeiro Maxwell Simões Correa, o “Suel”, tem um papel duplo nas acusações. Além do descarte de armas, ele foi indiciado com base na delação de Élcio de Queiroz por participar do planejamento. Seu caso já foi para o Tribunal do Júri, embora Lessa afirme que Suel não sabia dos planos contra Marielle.
### O caminho que ainda falta
Com os mandantes condenados, uma página virada, mas o livro não está totalmente fechado. Restam ações penais para julgamento, recursos das sentenças já proferidas e o inquérito sobre a morte de Macalé, figura central na ligação entre os criminosos.
Cada decisão judicial futura trará novos detalhes, ajudando a entender a extensão completa dessa conspiração. A sociedade acompanha, esperando que todas as sombras sejam iluminadas pela Justiça.
O caso Marielle se tornou um símbolo da luta contra a impunidade e a violência política. Seu desfecho completo é aguardado como uma demonstração de que nenhum poder é absoluto perante a lei.
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