Você sabia que o terceiro setor é um dos maiores empregadores do Brasil? São mais de duas milhões de pessoas trabalhando em quase 880 mil organizações espalhadas pelo país. Esse universo, que inclui ONGs, associações e fundações, tem uma característica marcante: a maioria dos trabalhadores são mulheres. Elas representam cerca de 65% da força total. No entanto, essa predominância numérica não se traduz em igualdade. Uma contradição silenciosa permeia esse ambiente.
Apesar de serem a base do setor, as mulheres ainda enfrentam barreiras para chegar aos cargos de liderança. Quando ocupam posições de comando, frequentemente recebem salários menores do que os homens em funções equivalentes. É uma realidade paradoxal para um campo que, em teoria, luta por um mundo mais justo e equitativo. Como pode um setor dedicado à transformação social reproduzir desigualdades dentro de suas próprias portas? Essa pergunta crucial motivou uma ampla pesquisa nacional.
Para entender esse cenário complexo, está em andamento um estudo chamado “Senso Mulheres do Terceiro Setor”. A escolha da palavra “Senso”, com S, é intencional. A ideia é captar mais do que números frios. O objetivo é sentir o pulso das experiências reais, ouvindo as histórias, os desafios e as jornadas das mulheres que dedicam suas vidas a essa causa. O estudo quer ir além do currículo formal.
Quem são as mulheres por trás do trabalho?
A pesquisa busca conhecer essas profissionais de maneira integral. Como elas equilibram a militância nas causas sociais com a vida pessoal e as responsabilidades de cuidado, que ainda recaem majoritariamente sobre elas? O estudo investiga como a atuação profissional se mistura com a vida cotidiana. A rotina muitas vezes exige conciliar reuniões importantes com demandas familiares, unindo paixão pela causa com a pressão por resultados.
O levantamento também quer iluminar como outras desigualdades se cruzam dentro do setor. Questões de gênero, raça, classe e geração se entrelaçam, criando experiências muito distintas. Dados de outras instituições já mostram um padrão preocupante: as mulheres negras, apesar de serem pilares fundamentais no trabalho de base das organizações, estão concentradas em funções operacionais. Elas têm menos acesso a cargos de decisão e recebem os menores salários.
É justamente para mudar essa fotografia que a pesquisa convida a participação de todas as mulheres que atuam no terceiro setor. Seja em uma organização ambiental no Norte, em uma associação comunitária no Nordeste ou em um movimento social no Sudeste, cada voz importa. O questionário é online, confidencial e as informações serão usadas apenas para compor um retrato fiel e necessário do setor.
Um retrato para inspirar mudanças
A coleta de dados é a etapa fundamental para construir uma análise sólida. As respostas serão processadas e estudadas para revelar padrões, desafios comuns e caminhos possíveis. O resultado final será um relatório público, previsto para o segundo semestre de 2026. Esse documento terá um valor inestimável. Ele não será apenas um diagnóstico, mas uma ferramenta prática.
Com informações claras e baseadas em evidências, gestores de organizações, formuladores de políticas públicas e as próprias profissionais poderão debater mudanças concretas. O debate sobre poder, trabalho e desigualdade ganhará um novo patamar, saindo das impressões para dados reais. A transparência do processo garante que as conclusões pertençam a toda a sociedade.
O objetivo final é que esse retrato detalhado sirva como um espelho para o terceiro setor. Reconhecer as próprias contradições é o primeiro passo para qualquer transformação genuína. Ao entender profundamente a realidade das mulheres que o sustentam, o setor pode começar a criar ambientes verdadeiramente justos, dentro e fora de suas organizações. A pesquisa é, assim, uma semente plantada para colher um futuro mais equilibrado.
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