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Riscos estratégicos e a dependência dos eleitores independentes

O cenário político para 2026 está longe de ser uma página em branco. Os números já começam a desenhar um país dividido em três grandes grupos. De um lado e de outro, dois blocos apresentam força similar, tanto em intenção de voto quanto em rejeição. O verdadeiro protagonista, no entanto, é o terceiro grupo: os eleitores independentes.

Essas pessoas não possuem um endereço fixo no mapa partidário. Elas formam o bloco decisivo, aquele que costuma inclinar a balança em pleitos acirrados. Uma pesquisa recente traz um dado revelador: a maioria desses eleitores não acredita que o atual presidente mereça continuar no cargo. Esse sentimento é o epicentro da próxima disputa.

Em 2022, uma parte expressiva desse eleitorado optou por um caminho diferente. Preferiu não escolher nenhum dos polos principais, seja através do voto nulo, da abstenção ou da rejeição a ambas as candidaturas. A grande interrogação para daqui a dois anos é justamente o destino desse grupo. Eles encontrarão uma proposta que gere alguma esperança? Ou repetirão o gesto de descrença, empurrando a decisão final para o vazio?

A força e os limites da memória

A trajetória de Lula e do lulismo permanece viva para quem viveu os anos de forte mobilidade social. Para essa parcela do eleitorado, aquela foi uma experiência concreta, que transformou a vida real de milhões. A memória afetiva é um capital político poderoso, mas ele não se transfere automaticamente no tempo. É um recurso que precisa ser constantemente renovado.

Para os brasileiros que eram crianças ou adolescentes até 2010, a percepção é distinta. O PT não é visto mais como uma força de insurgência histórica. Aparece, sim, como um partido que governou por muito tempo, ocupou o centro do poder e se integrou plenamente às estruturas do Estado. O discurso de oposição ao sistema, tão caro às origens, soa diferente para quem não tem essa lembrança.

Para essa geração mais nova, a narrativa petista compete com outras percepções, fortemente sedimentadas nos últimos anos. A operação Lava Jato, a ascensão da extrema-direita e a repetição incessante da palavra "corrupção" criaram uma paisagem mental específica. Qualquer episódio que sugira conchavo entre elites políticas, judiciais e financeiras só cristaliza a síntese de um sistema fechado, distante do cidadão comum.

O risco dos erros de percepção

Insistir em uma identidade antissistema, como se ela fosse uma verdade óbvia para todos, pode ser um erro estratégico perigoso. Esse movimento, paradoxalmente, pode reforçar a percepção contrária: a de que se trata, na verdade, de um establishment consolidado. Se o discurso por si só fosse decisivo, os resultados eleitorais recentes poderiam ser outros.

Ele não basta. É preciso que exista uma coerência clara entre o que se fala e a leitura que o eleitor faz do presente. É nesse ambiente de desconfiança que os independentes ganham um peso enorme. Eles são o público que observa a cena política com certo ceticismo, avaliando qual proposta parece mais crível e menos arriscada para o futuro do país.

Partidos com perfil mais central, como o PSD, observam esse fenômeno com atenção. Em um cenário de desgaste simétrico entre os polos principais, nomes com baixa rejeição podem se tornar instrumentos de veto. Eles não precisam necessariamente liderar as pesquisas desde o início. Basta se apresentarem como uma alternativa menos ruidosa e mais palatável para o eleitor desconfortável com os extremos.

A batalha pela experiência conquista

Enquanto a retórica esquenta, algumas medidas de governo tentam mudar o foco do debate. A ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais é um exemplo. A proposta tenta deslocar a conversa da memória para a experiência concreta no bolso de cerca de dezesseis milhões de trabalhadores.

Não se trata de evocar um passado glorioso, mas de gerar uma renda extra que permanece com quem trabalha. Para muitas famílias, mais de mil reais ao ano podem significar a matrícula da escola paga, a reforma do carro ou uma pequena melhora no orçamento doméstico. É um aumento de autonomia, e não mera assistência.

No entanto, essa autonomia precisa ser percebida como tal. A simples entrega da medida não gera capital político automaticamente. Se não for comunicada e traduzida na linguagem de quem a recebe, ela permanece como um dado técnico, frio e distante. Para quem valoriza a proteção social, a medida precisa soar como justiça. Para quem prioriza o mérito, precisa ser entendida como um reconhecimento ao esforço.

Aqui pode morar outro erro: a ausência de uma comunicação segmentada e de um posicionamento simbólico claro. Quando a identidade que um político ou partido declara não coincide com a experiência que o eleitor vive e percebe, instala-se uma dissonância. Esse ruído, em eleições decididas por uma margem estreita, corrói silenciosamente as chances de vitória. A conexão final depende de uma leitura precisa e humilde da realidade.

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