A Argentina viveu mais um dia de paralisação total nesta quinta-feira. Uma greve geral, a quarta desde a posse do presidente Javier Milei, parou o país com uma adesão que superou os 90%. O protesto é uma resposta direta ao pacote de reformas que o governo tenta aprovar no Congresso, medidas que retiram direitos históricos dos trabalhadores.
Por trás do número impressionante de adesão, há uma realidade de cansaço e dificuldade. Mobilizar-se em um contexto de crise aguda é um desafio enorme. As pessoas enfrentam aumentos consecutivos nas tarifas de transporte, gás e luz, enquanto os aluguéis disparam e as dívidas familiares se acumulam.
A greve paralisou trens, ônibus, comércios e serviços em todo o território nacional. Houve, porém, uma exceção que chamou a atenção. A única empresa de transporte que não aderiu à paralisação é justamente uma vinculada ao pai do presidente Milei. Relatos indicam que trabalhadores foram obrigados a comparecer ao trabalho, contrariando o movimento geral.
O ataque direto à imprensa crítica
Enquanto as ruas fervilhavam, o Congresso argentino avançava na votação da polêmica reforma trabalhista. Um ponto específico passou quase despercebido, mas tem um significado profundo: a retirada do estatuto profissional dos jornalistas. Com essa mudança, a categoria perde o marco legal que garantia seus direitos trabalhistas básicos.
Essa medida não é um fato isolado. Ela representa mais um capítulo na campanha aberta do governo Milei contra veículos de imprensa que fazem oposição. Jornalistas têm sido alvo constante de ataques, seja em discursos oficiais, seja nas redes sociais, ou mesmo durante a cobertura de protestos nas ruas.
Para os profissionais da comunicação, a aprovação desse artigo marca um retrocesso histórico. É um dia triste, que oficializa um ataque à profissão e remove garantias fundamentais. A mensagem é clara: o jornalismo crítico enfrenta um ambiente cada vez mais hostil e desprotegido no país.
A estratégia de medo nas ruas
Quem viu as imagens dos protestos em Buenos Aires notou uma cena assustadora. As ruas laterais às principais avenidas estavam tomadas por policiais. Havia caminhões de água posicionados em praticamente toda esquina, prontos para dispersar manifestantes. A desproporção entre cidadãos e forças de segurança era evidente.
A jornalista Erika Gimenez, que acompanhou as mobilizações, descreveu a cena de forma direta: tinha mais polícia do que pessoas. Após as cinco da tarde, a violência desproporcional se tornou a imagem predominante. É uma estratégia que muda taticamente a cada protesto, mas mantém a mesma essência: a repressão pura e simples.
O objetivo por trás do aparato policial massivo é claro: intimidar e desencorajar a mobilização popular. Eles buscam gerar medo. No entanto, essa tática pode acabar tendo o efeito contrário. A população já começa a esperar pela violência, e há um sentimento de que, em algum momento, a raiva pode se transformar em uma resistência ainda mais organizada.
A falsa imagem de sucesso
O governo classifica seus primeiros meses e a aprovação das reformas como um grande sucesso. A realidade nas ruas, porém, pinta um quadro muito diferente. Atualmente, a Argentina conta com um contingente de 40% de trabalhadores na informalidade. São milhões de pessoas sem direitos ou estabilidade.
Governos anteriores, inclusive os de viés progressista, não conseguiram reverter esse quadro grave. A situação agora se agravou a ponto de, para ter uma vida minimamente digna, muitas pessoas precisarem de três empregos diferentes. Essa rotina exaustiva não pode ser vendida como a imagem de um país que dá certo.
A reforma trabalhista segue seu curso no Legislativo, e o clima é de mais confronto pela frente. O caminho apontado por muitos é o da organização popular, seja através da oposição tradicional ou de novas formas de mobilização. Uma resposta imediata e massiva pode ser difícil, mas a pressão deve continuar a crescer.
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