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Grupos de acesso do Carnaval do RJ enfrentam precariedade e risco de incêndio

Um único galpão na zona norte do Rio reúne a magia – e os desafios – de boa parte do Carnaval carioca. É ali, no Campinho, que cerca de 40 escolas das divisões de acesso montam seus desfiles. O espaço compartilhado é um retrato da realidade: estrutura limitada e a necessidade de união para que a festa aconteça.

Na entrada, uma faixa alerta sobre o risco de incêndio. O aviso não é por acaso. Materiais como espuma, tecidos e tintas são altamente inflamáveis. Por segurança, até o uso de ferro de solda tem horário para terminar. São regras simples, mas cruciais para proteger o trabalho de centenas de pessoas.

Esses cuidados tentam minimizar um perigo antigo. Nos últimos 15 anos, ao menos oito incêndios atingiram barracões e confecções de Carnaval. Três deles aconteceram na própria Cidade do Samba, o complexo das escolas do Grupo Especial. O risco, portanto, não escolhe divisão.

Os riscos reais por trás dos adereços

O caso mais grave recente foi na Unidos do Jacarezinho. A escola sofreu dois incêndios em poucos meses. O segundo, na quadra, destruiu fantasias de 12 alas. Em um apelo nas redes, a agremiação lamentou a falta de condições igualitárias para competir. A situação expõe a vulnerabilidade de quem depende de estruturas precárias.

Ano passado, uma tragédia mostrou o lado mais cruel dessa realidade. Um incêndio em uma confecção em Ramos deixou 21 feridos e uma vítima fatal. Profissionais dormiam no local após longas jornadas. A perícia apontou ligações clandestinas de energia. Fantasias de três escolas se perderam ali.

Esse acidente reacendeu o debate sobre a necessidade de espaços adequados. A prefeitura promete acelerar as obras da Cidade do Samba 2, que deve abrigar escolas da segunda divisão. A promessa é de galpões com ventilação, luz natural e mais segurança. Mas, por enquanto, é só um plano.

A batalha por estrutura e recursos

Enquanto o projeto não sai, a realidade é de improviso. O galpão compartilhado no Campinho, mesmo com suas limitações, ainda é uma vantagem. Muitas escolas da Série Ouro trabalham em barracões a céu aberto, expostos ao sol e à chuva. Falta até ligação regular de energia, o que obriga a um rodízio no uso das máquinas.

O repasse de verbas públicas é outro ponto crítico. Os recursos costumam chegar a apenas um mês do desfile, mas os preparativos começam com seis meses de antecedência. Nas escolas menores, o dinheiro vem de doações, empréstimos e muito esforço comunitário. O repasse oficial, quando cai, muitas vezes só serve para quitar dívidas antigas.

A desigualdade é sentida na prática. Ao comprar materiais, escolas menores competem pelos mesmos tecidos e aviamentos que as gigantes do Especial. O preço é igual, mas o orçamento é infinitamente menor. A solução, então, é a criatividade e a reciclagem de materiais de anos anteriores.

A vida nos bastidores da folia

Por trás de cada fantasia e adereço, há profissionais que trabalham o ano todo, muitas vezes sem qualquer vínculo formal. São pintores, decoradores e costureiras que fecham acordos verbais, por empreitada. É comum uma mesma pessoa atuar em três, quatro ou até cinco escolas diferentes para fechar a renda do mês.

Poucas semanas antes do Carnaval, os turnos se estendem pela madrugada. Foi em uma jornada como essa que ocorreu a tragédia do ano passado. Não há um sindicato forte que os represente. Eles vivem de sua rede de contatos e da experiência de saber “quem paga e quem não paga”.

Esses trabalhadores são a espinha dorsal da festa, mas permanecem invisíveis. Enquanto carnavalescos e presidentes ganham holofotes, quem molda a magia nos barracões segue anônimo. Sua realidade é de dedicação total a uma paixão que, não raro, coloca em risco sua própria segurança e sustento. A folia, para eles, é um trabalho de altíssima responsabilidade.

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