Mais da metade das mulheres brasileiras que já se relacionaram com homens vivenciaram alguma forma de violência doméstica. Esse dado alarmante vem de um estudo recente sobre os vinte anos da Lei Maria da Penha. A pesquisa revela um cenário onde a agressão, infelizmente, ainda é parte da realidade de milhões.
Os números mostram que 54% das mulheres no país relatam ter sofrido violência de um parceiro ou ex. Isso representa cerca de 47,7 milhões de brasileiras. A violência se manifesta de várias formas, nem sempre deixando marcas visíveis no corpo da vítima.
O tipo mais comum é a violência psicológica, enfrentada por 42% das entrevistadas. Em seguida, aparecem a violência física (25%) e a moral (19%). Violência sexual e patrimonial foram citadas por 10% e 9% das mulheres, respectivamente.
A percepção dos homens sobre a violência
Enquanto isso, apenas 11% dos homens admitem ter cometido algum ato violento contra uma parceira. Quando questionados sobre tipos específicos, como agressão física ou moral, esse percentual sobe. A pesquisa indica que muitos tentam justificar seu comportamento, mas não detalham as agressões.
Um entrevistado chegou a dizer que foi "instigado" a agir com violência. Especialistas veem nisso uma falta de reconhecimento sobre o que constitui uma agressão. Muitos homens não identificam certas atitudes como violentas, o que perpetua o problema.
Para 88% das mulheres, os principais agressores são ou foram seus companheiros. O estudo ouviu mil mulheres e quinhentos homens com mais de dezesseis anos. A margem de erro é de 2,8 pontos percentuais para os dados gerais.
Como as pessoas reagem ao testemunhar agressões?
A solidariedade aparece quando se pergunta sobre testemunhar uma agressão. Sete em cada dez mulheres chamariam a polícia ao ver outra mulher sendo atacada. Outras 11% procurariam ajuda de terceiros, e 9% tentariam intervir diretamente, mas sem força física.
Entre os homens, 56% também afirmam que acionariam as autoridades. A segunda reação mais comum seria uma intervenção direta e pacífica (19%). Um percentual de 15% dos homens usaria a força se julgasse necessário para interromper a agressão.
Apenas uma minoria, 3% dos homens e 1% das mulheres, não faria nada. Eles justificam que não deveriam se intrometer na situação. Esses dados mostram uma disposição social para não se calar perante a violência contra a mulher.
Os canais de ajuda e os obstáculos para usá-los
A delegacia da mulher é o serviço de apoio mais conhecido pelas brasileiras. Três em cada quatro mulheres citam esse espaço. Na sequência, aparecem o Ligue 180 e o Ligue 190, conhecidos por mais da metade da população feminina.
Outros recursos, como serviços de assistência social e os juizados especializados, têm menor reconhecimento. A Casa da Mulher Brasileira também é menos citada, indicando que é preciso divulgar mais essas portas de entrada para o acolhimento.
O medo ainda é o maior obstáculo. Para 68% das mulheres, o receio de sofrer represálias do agressor as impede de denunciar. Outras 56% temem a impunidade, e 39% citam a lentidão da Justiça como uma barreira para buscar ajuda.
O conhecimento e a avaliação da Lei Maria da Penha
O conhecimento sobre a lei é amplo. Quase metade dos homens (48%) e das mulheres (49%) afirmam conhecê-la bem. A maioria das brasileiras a descreve, de forma espontânea, como uma legislação criada para a proteção feminina.
Porém, sua aplicação é vista como aquém do necessário. Oitenta por cento das mulheres acreditam que a lei não funciona como deveria. Para 82%, ela ainda é insuficiente para enfrentar o problema da violência doméstica de forma efetiva.
Além disso, apenas 41% concordam que as forças de segurança estão preparadas para atender vítimas de todos os tipos de violência. A sensação é que, apesar do marco legal importante, a proteção real na prática ainda precisa avançar muito.
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